Começar a vida em outro país



Começar a vida em outro país requer muita coragem. Coragem para tomar a decisão e, depois de tomada, coragem para começar a se adaptar a todas as mudanças que virão pela frente.

É renunciar ao trabalho e a todos os amigos que você conquistou ao longo dos anos em seu país. É começar a se desfazer de seus pertences: móveis, roupas, objetos e tantas outras coisas que fizeram parte da sua história.

Mas, acima de tudo, é renunciar ao sentido de pertencimento.

É deixar para trás uma reputação construída ao longo dos anos e, muitas vezes, uma posição reconhecida. É abrir mão de algo muito valioso: aqueles amigos que nos ouvem, que conhecem nossa história, que compartilham nossas confidências e que estão presentes nos momentos de crise.

É também deixar para trás a família, onde encontramos aquela sensação de afirmação, segurança e confiança.

Colocar toda uma vida dentro de algumas malas realmente não é fácil.

É deixar para trás um sentimento de segurança e afirmação e partir para um lugar onde, de repente, quase tudo precisa ser reconstruído.

Partindo — o primeiro mês em um lugar novo

Chega o dia da viagem e um misto de emoções vem à tona.

É um momento de celebração, reconhecimento e despedidas.

Há alegria pelo novo que está começando, mas também tristeza por aquilo que estamos deixando para trás.

 É justamente nesse momento que o medo e a coragem se encontram. E, muitas vezes, é dessa mistura que nasce o impulso necessário para recomeçar e viver uma nova aventura.

Para muitos de nós, essa pode ser a primeira vez que entramos em um avião, o que torna a mistura de tensão e expectativa ainda maior. Os detalhes dentro do avião eu deixo para que você conte sua própria experiência. Rsrs.

Então desembarcamos.

E, junto com nossas malas, deixamos para trás também aquela posição que tínhamos antes.

Nos primeiros dias, tudo é muito novo e fascinante: a casa, as pessoas, o supermercado, o novo idioma, a comida, os costumes...

Saímos para conhecer a cidade, visitar lugares turísticos e experimentar novos sabores. É uma verdadeira “lua de mel” com a nova cultura.

Continuamos “conectados” com nosso país. Praticamente todos os dias falamos com nossos familiares e com os amigos mais próximos. Sentimo-nos orgulhosos de ter dado um passo tão grande na vida.

Porém, o fuso horário começa a dificultar a comunicação. Aos poucos, as conversas se tornam menos frequentes e, com o passar do tempo, alguns laços começam a se afrouxar.

Aquela primeira impressão vai desaparecendo e a afirmação e a segurança que tínhamos anteriormente já não estão tão presentes.

Como lidar com a saudade

A saudade é algo inevitável e, muitas vezes, nos consome por dentro.

Por isso, é sempre bom levar na mala algo que ajude a amenizá-la, algo que traga boas lembranças. Pode ser um objeto, um perfume, um álbum de fotografias ou até mesmo um sabor específico que desperte aquela sensação de estar em casa.

É sempre bom ter na mala aquele doce ou salgadinho que nos faz lembrar de pessoas, lugares e momentos especiais.

Mas, muitas vezes, lidar com a saudade não é nada agradável.

Principalmente quando, naquele exato momento, tudo o que mais queremos é estar perto de quem amamos, de quem faz nossos dias terem sentido — e isso simplesmente não é possível.

É nesse momento que percebemos que algumas expectativas não serão supridas.

E isso também faz parte do processo de quem decidiu começar a vida em outro país.

Começamos a nos sentir sem estrutura. Estamos vivendo um processo de transição em que perdemos o status que tínhamos, nossa profissão já não parece ter a mesma importância e, de repente, nos encontramos em meio a um verdadeiro caos.

Mas esse caos também faz parte da adaptação.

Problemas que antes pareceriam pequenos podem se tornar enormes. A dificuldade de compreender o idioma e a cultura pode nos fazer sentir isolados.

Até que, pouco a pouco, começamos a superar essa fase da nova vida e nos desafiamos a iniciar novos relacionamentos.

Muitas vezes, passamos por um período de perda da autoestima. Perdemos também aquele contato contínuo com os amigos que ficaram em nosso país.

Então começa um novo processo:

Fazer novos amigos em uma nova cultura

Novos relacionamentos surgem. Novas amizades começam a florescer. E, aos poucos, começamos a nos sentir um pouco melhor.

É um sinal de que estamos nos adaptando.

Começamos a “entrar” na nova cultura, mesmo cometendo alguns equívocos: uma palavra mal interpretada, uma atitude que não compreendemos, um comportamento que pode parecer estranho para nós.

Os relacionamentos ainda são recentes e temporários, e continuamos procurando pessoas em quem realmente possamos confiar.

Porque, mesmo quando fazemos novas amizades, ainda não conhecemos essas pessoas o suficiente para confiar plenamente nelas como confiávamos em alguns amigos que ficaram em casa.

Por isso, ainda nos sentimos vulneráveis. Podemos nos sentir ofendidos com mais facilidade e, em alguns casos, esse processo pode até desencadear manifestações físicas e emocionais.

Fazer novos amigos é um desafio, mas, com o tempo, aprendemos a compreender melhor e também a sermos compreendidos.

Quando começamos a pertencer

Depois de alguns anos, quando aquele choque inicial do novo começa a passar — e isso pode levar dois anos ou mais —, algo começa a mudar dentro de nós.

Começamos a experimentar novamente o sentimento de pertencimento.

O idioma e a cultura já não parecem tão diferentes ou tão difíceis de compreender. Começamos a sentir que pertencemos àquele lugar.

Sentimo-nos parte de um grupo: no trabalho, na igreja, na comunidade ou nos diferentes círculos de convivência.

A posição que havíamos perdido ao entrar em uma nova cultura começa, pouco a pouco, a ser reconstruída.

Agora somos reconhecidos novamente.

Já temos amigos que nos ouvem, pessoas com quem podemos compartilhar nossas histórias e aqueles que começam a conhecer quem realmente somos.

Hoje, estamos mais confiantes e seguros por estarmos naquele lugar que, no início, parecia tão estranho.

E então percebemos algo:

AOS POUCOS, AQUELE LUGAR SE TORNOU NOSSA CASA.


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