Ate quem cuida precisa ser cuidado, quem reparte precisa receber.

 

Ate quem cuida precisa ser cuidado, quem reparte precisa receber.


Eu não sei você, mas sou o tipo de pessoa que valoriza muito as amizades. Sabe aquela pessoa que, de alguma maneira, procura facilitar a vida dos outros? Sou eu!

Talvez por trabalhar diretamente com pessoas ao longo dos últimos 23 anos, aprendi a conhecer um pouco mais de perto suas fortalezas, necessidades e também suas debilidades. E, quando nos permitimos ser conhecidos, também mostramos quem somos: nossas fortalezas, nossas fragilidades e, acima de tudo, o nosso caráter.

Às vezes, porém, em momentos de vulnerabilidade, nos tornamos mais sensíveis. E chega um determinado momento da vida em que começamos a perceber o quanto nos doamos por algumas pessoas e, infelizmente, nem sempre encontramos a mesma disposição do outro lado.

Eu sei que não devemos esperar que aquela pessoa que está ao nosso lado — seja em um ambiente familiar, profissional ou de amizade — faça por nós exatamente aquilo que fazemos por ela.

Mas, lá no fundinho do coração, esperamos.

Esperamos uma resposta.

Esperamos cuidado.

Esperamos reciprocidade.

E quando ela não vem, a frustração aparece.

O mais difícil é perceber que, algumas vezes, essa frustração começa a mudar quem somos. Começamos a pensar duas vezes antes de ajudar, de nos doar, de estender a mão. Começamos a construir barreiras para não nos machucarmos novamente.

E isso não é nada fácil.

Não acredito necessariamente que essas pessoas pensem apenas nelas mesmas. Talvez essa seja simplesmente a maneira como aprenderam a viver. Talvez seja tudo o que conseguem oferecer. Ou talvez, em alguns casos, elas simplesmente nos enxerguem como alguém que pode ajudá-las ou facilitar alguma coisa em suas vidas.

E preciso admitir que isso dói.

Dói sentir que algumas pessoas me procuram principalmente quando precisam de alguma coisa, quando isso pode beneficiá-las de alguma maneira.

E o mais curioso é que, muitas vezes, a pessoa que está precisando de ajuda sou eu e não estou falando sobre dinheiro.

Mas, sendo uma pessoa que valoriza profundamente as amizades e os relacionamentos, também gostaria de me sentir valorizada.

Se sou capaz de me doar por alguém que mal conheço, imagine o quanto desejo fazer por aqueles que estão mais próximos de mim.

E talvez seja exatamente aí que esteja uma das minhas maiores lutas: continuar sendo quem sou sem permitir que a falta de reciprocidade dos outros mude a minha essência.


Em um dia específico, me peguei questionando a mim mesma — e também a Deus — sobre o quanto levei a sério algumas palavras que encontrei na Bíblia.

Uma delas está em Lucas 3:11.

João Batista estava pregando sobre arrependimento e perdão de pecados, as pessoas vinham até ele para que fossem batizadas e elas o perguntavam o que deveriam fazer. Então ele respondeu:

"Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo."

Ou seja, a nova vida delas, deveria produzir frutos novos!

De alguma maneira, eu levei essas palavras muito a sério.

Talvez até demais.

Aprendi a não viver apegada a coisas, mas a valorizar pessoas! Não sei parar de repartir aquilo que tenho com quem não tem e mais uma vez não me refiro a apenas a coisas, mas também atenção, afeto, amor, tempo etc.

E não faço isso esperando reconhecimento, elogios ou qualquer tipo de retorno. Faço porque acredito nisso. Faço de coração. Faço porque, para mim, compartilhar faz parte de quem eu sou.

Eh um paradoxo ou contraditório mas preciso ser honesta: na minha humanidade isso me fere quando percebo que pessoas próximas conhecem as minhas necessidades e, mesmo assim, não demonstram a mesma disposição em serem solícitas comigo.

Especialmente dentro do contexto missionário.

E então me pergunto:

Será que isso é apenas parte da cultura na qual estou inserida?

Será que essas pessoas simplesmente têm uma maneira diferente de enxergar ajuda, amizade e reciprocidade?

Ou será que, talvez, elas não levaram Lucas 3:11 tão a sério quanto eu levei?

Não tenho todas as respostas.

Talvez eu esteja aprendendo justamente que dar sem esperar receber não significa que não podemos desejar ser cuidados também.

Podemos.

Podemos ser fortes e, ao mesmo tempo, precisar de alguém.

Podemos ter mãos acostumadas a estender-se para ajudar e, em algum momento, também precisar que alguém segure as nossas.

E talvez não haja nada de errado nisso.

Talvez o desafio seja continuar repartindo sem permitir que a decepção endureça o nosso coração.

Continuar sendo generosos, mas também aprender a reconhecer quando precisamos dizer: “Agora eu também preciso de ajuda.”

E você?

Já passou por isso?

Já se sentiu assim — dando muito de si e percebendo que, quando chegou a sua vez de precisar, poucas pessoas estavam por perto?

Ou talvez você esteja do outro lado dessa história e tenha percebido que alguém que sempre esteve disponível para você também precisava de cuidado e você não percebeu.

Quero muito saber sobre a sua experiência.

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